FamillePhilosophie

Grito com os meus filhos o tempo todo: o que ninguém te diz sobre o cansaço invisível

A pesquisa «grito com os meus filhos o tempo todo» é escrita todos os dias. Aqui está o que os métodos habituais não te dizem — e um gesto para esta noite.

6 min de leituraSèna Gay-Vigan

São 19h12. A cozinha cheira ao arroz que se colou ao fundo do tacho. O bebé tem fome. O mais velho tira o caderno de matemática com um suspiro velho demais para a idade dele. O do meio mostra-te uma meia sozinha e pergunta-te onde está a outra. Vês-te refletida no vidro da janela. Vês uma mulher que grita. Outra vez.

Esta noite também não aguentaste.

Entras na casa de banho. Fechas a porta sem a bater — é a tua pequena vitória da noite. Sentas-te encostada ao lavatório, apoias a cabeça nos joelhos, e dizes a ti mesma aquela frase que já andas a repetir há meses: não gosto da mãe em que me estou a tornar.

E então escreves no Google: grito com os meus filhos o tempo todo.

Não estás sozinha. Essa pesquisa é escrita todos os dias, dezenas de milhares de vezes. Por mães que já não se reconhecem. Por pais que juraram não se parecer com os seus. Por mães que já leram os livros, seguiram as contas, ouviram os podcasts — e continuam a gritar.

Se estás aqui, já leste muitos artigos sobre o tema. Conheces as técnicas. Sabes que é preciso respirar, tomar distância, «nomear a emoção». Sabes tudo isso.

Este não é um desses artigos.

Gosto de pensar que a raiva que carregas, carrega-la por razões que ninguém te diz.

Este cansaço não tem nome

Nas conversas sobre maternidade fala-se muito de cansaço. Das noites cortadas, dos dentes, dos biberões, do sono que já não encontras. É verdade. Mas não é desse cansaço que se trata quando gritas às 19h12 com um filho que não fez nada de extraordinário.

Esse cansaço tem outro nome. Na verdade, não tem nenhum. É por isso que não conseguimos falar dele.

É o cansaço de segurar.

Segurar a casa. Segurar as consultas médicas. Segurar a meia sozinha que te estendem. Segurar a calma porque as crianças olham. Segurar o sorriso para a ama. Segurar a postura para o pediatra. Segurar as contas. Segurar o casamento. Segurar a lista das compras. Segurar o mês.

Segurar o mundo aos ombros a fingir que não pesa.

Esse cansaço não se vê no espelho. As tuas olheiras não o contam. Ninguém à tua volta lhe dá um nome porque não tem uma palavra na língua de todos os dias. Não se mede em horas de sono perdido. Mede-se noutra coisa — em anos de um peso carregado em silêncio.

E à noite, quando gritas, não estás a gritar com o teu filho. Estás a gritar porque aquilo que carregaste desde manhã — desde há anos — acabou de ceder.

As tuas mãos sabem primeiro

Se prestares atenção, apenas um instante, vais notar uma coisa.

Antes de gritares, as tuas mãos fecham-se.

Não as duas ao mesmo tempo, normalmente. A direita. O polegar que faz pressão contra o indicador. Uma pequena contração. Alguns segundos. Antes. Antes de a garganta se fechar, antes de o peito inchar, antes de a frase sair alto demais.

As tuas mãos sabem primeiro.

É o corpo. Regista tudo aquilo que tu te recusas a registar. A frustração das quatro da tarde, a deceção do almoço, a irritação de ontem, o olhar da tua colega, a mensagem da tua mãe, a humidade da meia sozinha. Tudo isso puseste de lado, «geriste», deixaste passar. Não tinhas tempo. Não tinhas autorização.

Teve de ir para algum lado.

Para o teu corpo. Para as tuas mãos.

E quando o limite é atingido — uma noite, às 19h12, por uma coisa sem importância — é pelas tuas mãos que começa a sair. Fecham-se. A tua voz segue-as.

Disto não se fala nos livros de maternidade. Fala-se de comunicação, de intenções, de métodos ternos. Fala-se à cabeça. Não se fala do corpo. Não se fala da mão que se fechou três segundos antes do grito.

Porque é que os métodos habituais não aguentam

É por isso que tantos métodos não duram no tempo.

A respiração profunda funciona cinco minutos — até te esqueceres, porque não respiras com a cabeça, e a tua cabeça já anda noutro lado.

Contar até dez funciona até ao sete. Quando o teu filho diz a frase a mais.

Ir para o quarto ao lado funciona se puderes. Com um bebé a chorar e um jantar por acabar, quase nunca podes.

Estes métodos pedem à tua cabeça que faça o trabalho que o teu corpo precisa de fazer.

Não é falha da tua vontade. É falha de morada. Estás a falar para o andar de cima enquanto o fogo é na cave.

E se não fosse pela cabeça, mas pelas mãos?

E se aquilo que acalma verdadeiramente não fosse «acalmares-te» — essa palavra impossível que não quer dizer nada quando estás a tremer — mas pousar?

Pousar alguma coisa. Pousar a mala. Pousar as chaves. Pousar, simplesmente, as duas mãos abertas sobre a mesa, palmas contra a madeira, e esperar. Não muito. Cinco respirações. O tempo de a mão direita — a que se tinha fechado três segundos antes do grito — voltar a abrir-se.

Não precisas de te tornar noutra mãe. Não precisas de um programa de vinte e um dias. Precisas de um gesto. Um. Um gesto que não peça nada à tua cabeça — porque a tua cabeça, agora, está saturada.

Há um mundo de gestos assim. Pousar as mãos abertas. Amassar. Lavar a louça devagar, a sentir a água quente a passar entre os dedos. Dobrar a roupa, um lençol de cada vez. Escovar o cabelo de um filho. Escolher as lentilhas. Partir um ovo — parti-lo a sério, devagar, a olhar para a casca a ceder.

São gestos antigos, comuns, quase humildes. A maternidade moderna esqueceu-os porque os associamos à dona de casa, à avó, a um tempo que quisemos deixar para trás. Fizemos bem em deixar para trás algumas coisas. Mas pelo caminho perdemos a forma como as nossas mãos regulavam o tumulto interior.

As tuas mãos são uma saída. Quando a raiva sobe, é por aí que pode voltar a descer — desde que lhes dês algo que fazer que tenha sentido.

Não uma almofada para murrar.

Algo a que dar forma.

Um gesto é tudo o que podes pedir a esta noite

Escrevi um texto sobre isto. Chama-se O Recurso. Sessenta e seis páginas, gratuito, chega-te por e-mail. É uma fábula à volta de sete gestos — sete maneiras de voltares a ti quando andas há tempo demais a carregar demais.

O segundo gesto chama-se Pousar. Diz o que acabei de te dizer, mas de outra maneira, em forma de conto, com uma mulher idosa junto a um poço que sabe coisas sobre o cansaço que se carrega sem nunca o nomear.

Esta noite, talvez voltes a gritar. Não te peças para nunca mais gritares. Só te peças, da próxima vez, para olhar para a tua mão direita três segundos antes.

Se estiver fechada, abre-a. Pousa-a aberta.

Vais ver. Vai acontecer outra coisa.

Gosto de pensar que a mãe em que te estás a tornar não é a que grita — é a que aprende a ouvir, nas suas próprias mãos, o momento em que precisa de pousar.

E o que és, ali, às 19h12, na casa de banho, com a cabeça apoiada nos joelhos, é simplesmente a parte de ti que diz: Chega.

Com ternura,

— Sèna

Autres articles du dossier

À lire dans le prolongement de cet article.

Explorer la rubrique : Famille

Cet article dans d'autres langues

Partager cet article

Aller plus loin

Découvrez la collection d'ebooks

Six ebooks pour cuisiner avec amour, transmettre, et retrouver le plaisir de la table.