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Os 90 segundos que mudam tudo: a janela que a maioria dos pais perde

Tens 90 segundos para não explodir com os teus filhos. É a janela que a maioria dos pais perde — e o que a neurociência nos ensina a fazer no lugar.

7 min de leituraSèna Gay-Vigan

São 17h47. É a hora do lanche, aquele momento suspenso da tarde em que os miúdos acabam de chegar da escola e tu estás no meio de um dia impossível. A mais pequena quer as bolachas, o mais velho pede ajuda com os trabalhos de casa, o jantar ainda está por fazer, e o teu companheiro só chega tarde. Está tudo normal. Está tudo demasiado.

O teu filho acabou de dizer alguma coisa. Uma tolice. Uma frase um pouco áspera. Um não firme de mais. Nada de grave, em si — mas cai-te em cima às 17h47, no fim de um dia já longo demais, sobre um cansaço já cheio demais. E sentes um calor a subir. No peito. Na garganta. Alguma coisa que quer sair.

Tens duas hipóteses nos segundos que vêm. Podes deixar sair — e vai ser a explosão, o grito, a frase de que te vais arrepender daqui a trinta minutos. Aquela frase que vais contar à tua irmã ao telefone esta noite, com vergonha. Ou podes cerrar os dentes, contrair a mandíbula, engolir. E então não vai sair agora. Mas vai sair mais tarde. Noutro sítio. Sobre alguém. Muitas vezes sobre ti mesma, à frente do espelho da casa de banho às dez da noite, à procura da mãe que pensavas que ias ser.

São as duas hipóteses que a maioria dos pais conhece. Explodir ou reprimir. Como se fossem as únicas.

Há uma terceira. Dura exatamente 90 segundos. E é a janela que quase toda a gente perde.

A regra dos 90 segundos

Foi uma neuroanatomista americana, Jill Bolte Taylor, que popularizou este dado — vindo das suas investigações sobre o cérebro e da sua experiência de um AVC que observou em direto por dentro. Eis o que ela descreve: quando uma emoção forte se desencadeia no teu corpo — a raiva, por exemplo — desata uma cascata química. O teu cérebro liberta neurotransmissores (cortisol, adrenalina, noradrenalina) que se espalham pelo corpo, aceleram o ritmo cardíaco, contraem os músculos, sobem a tensão.

Esta cascata dura cerca de 90 segundos.

Passados esses 90 segundos, biologicamente, a emoção já passou. As moléculas dissiparam-se. O corpo volta ao estado normal — desde que não faças nada para reacender a cascata.

É este ponto que muda tudo.

A emoção, em si, é curta. Uma onda. 90 segundos. Se a deixares passar, passa. Mas se a pensares — se disseres a ti mesma «não aguento mais, é sempre a mesma coisa, esta criança não respeita nada, vou explodir» — então estás a injetar combustível na cascata. Um pensamento de raiva reacende os neurotransmissores da raiva. E a onda começa de novo, mais 90 segundos.

É por isso que certas raivas duram três horas. Não é uma emoção única de três horas. São cento e vinte ondas de 90 segundos, cada uma reacendida por um pensamento.

O que a maior parte de nós faz durante esses 90 segundos

Agora, a armadilha.

Durante esses 90 segundos — em que o reflexo certo seria não fazer nada mentalmente — a maior parte de nós faz exatamente o contrário.

Procuramos compreender («porque é que me irrito assim»). Julgamos («sou uma mãe má»). Censuramo-nos («outra vez, outra vez»). Planeamos. Ruminamos. Comparamos («as outras mães não têm este problema»). Prometemos («nunca mais vou gritar»).

Cada um destes pensamentos — cada um — reacende a cascata química. E ao fim de 90 segundos, não é uma emoção que passou. É uma emoção que se reacende.

Não perdeste o controlo. Perdeste os 90 segundos. É a janela mais útil de toda a parentalidade, e ninguém te mostrou.

O que se passa mesmo no corpo

Se pudesses olhar para dentro de ti durante esses 90 segundos, era isto que verias.

Uma onda de calor que parte do plexo solar e sobe. Um coração que acelera. Uma mandíbula que aperta. Uns ombros que sobem em direção às orelhas. E, se lhe prestares atenção, uma mão que se fecha — muitas vezes a direita, o polegar a fazer pressão contra o indicador.

É só isso. É só isso que se está a passar.

Não é uma catástrofe moral. Não é um desmoronar do teu valor como mãe. É uma cascata química de 90 segundos que pede para atravessar o teu corpo.

O corpo sabe fazer. É a cabeça que não sabe.

Uma terceira via

Entre explodir e reprimir, há um terceiro caminho que quase ninguém nomeia. Consiste em deixar a onda atravessar, sem a alimentar mentalmente, sem a reprimir — a ocupar simplesmente o corpo enquanto ela passa.

Não é uma técnica de respiração. Não é um método de visualização. Não é uma afirmação para repetir. É um gesto. Um gesto muito simples, muito humilde, que ocupa as mãos e que fala diretamente ao sistema nervoso — sem passar pela cabeça, que é precisamente aquilo que te trai nesses 90 segundos.

Descrevo este gesto em O Recurso, o texto gratuito que envio às mães e aos pais que me seguem. É o segundo dos sete gestos do Recurso, e chama-se Pousar. Uma fábula curta. Poucas páginas para ler uma noite. Um gesto para experimentar no dia seguinte.

E para além do Recurso, este gesto é um dos pilares de um livro que estou a escrever — Amassar o pão, dar forma à raiva. Fala de uma coisa: como certos gestos antigos, comuns, feitos todos os dias na cozinha, transformam duradouramente a nossa relação com a raiva. Não a suprimindo. A dar-lhe forma. A massa que se amassa, o pão que ganha forma, tornam-se os companheiros silenciosos de uma transformação que as palavras não sabem fazer.

Para começar esta noite

O Recurso é o ponto de partida. Sessenta e seis páginas, gratuito, chega-te por e-mail.

E se quiseres ser avisada quando Amassar o pão, dar forma à raiva estiver pronto, também podes inscrever-te aqui — o livro vai ser a culminação do caminho que O Recurso esboça, e as suas leitoras serão as primeiras a saber.

Ser avisada do lançamento de *Amassar o pão, dar forma à raiva*

Esta noite, a próxima vez que a onda subir, não tentes acalmar-te. Olha só para a tua mão direita. Se estiver fechada, é porque sabe alguma coisa que a tua cabeça ainda não sabe. O resto, O Recurso dir-to-á.

E o que és, ali, nesse instante mesmo antes da explosão, com o calor a subir e a mão a fechar-se, é simplesmente a parte de ti que diz: Chega.

Com ternura,

— Sèna

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