São 20h47. Estás de pé à porta do quarto. O teu filho não adormeceu. Já leste o conto. Já cantaste a canção. Deixaste o copo de água na mesinha, acendeste a luz de presença, baixaste a luz. Já saíste duas vezes. Estás há quarenta minutos a negociar com um miúdo de cinco anos, e esta noite ele decidiu que dormir não vai acontecer.
Fizeste o que te ensinaram a fazer. Respiraste. A sério. Quatro tempos a inspirar, quatro em pausa, quatro a expirar. Contaste as respirações no corredor à espera que ele adormecesse. Praticaste a coerência cardíaca que o teu podcast preferido recomendou. Fizeste tudo isso com aplicação.
E mesmo assim estás prestes a explodir.
Perguntas-te o que é que não está a funcionar. Se respiraste mal. Se não fizeste o suficiente. Se estás mesmo estragada.
Não estás estragada. A respiração, nesse momento preciso, não podia funcionar. E ninguém te tinha dito.
O que a respiração pode fazer (e o que não pode fazer)
Antes de mais, sejamos honestas: a respiração profunda é uma prática real, e tem efeitos reais.
A longo prazo — praticada todos os dias, com calma, fora dos momentos de crise — aumenta o teu «tónus vagal», ou seja, a capacidade do teu sistema nervoso de voltar à calma. Torna-te, com o tempo, mais resiliente. É valioso.
Mas não pode fazer aquilo que lhe pedimos no corredor à porta do quarto, às 20h47.
Eis porquê.
Nesses momentos, quando a raiva sobe e o teu corpo está na famosa cascata de 90 segundos (aquela de que falei noutro artigo), o teu córtex pré-frontal — a parte do cérebro que decide, executa, dirige — está parcialmente fora de serviço. É por isso que te sentes «fora de ti». Não é uma metáfora. É neurológico.
E a respiração profunda é uma ordem que vem do córtex pré-frontal. Tens de dizer a ti mesma «respira». Tens de contar. Tens de manter a atenção. É um trabalho de cabeça. E a cabeça, nesse instante, é precisamente o que te está a falhar.
É como pedir a alguém para correr com a perna acabada de partir. Não é um problema de vontade. É um problema de morada.
O que se está mesmo a passar no corpo enquanto respiras
Enquanto respiras lá em cima, o corpo continua o trabalho dele lá em baixo. O coração bate, a mandíbula aperta, os ombros sobem, e as tuas mãos — é aí que é mais claro — fecham-se.
As tuas mãos. É aí que a raiva se cristaliza fisicamente. É por onde ela se exprime quando sai: o punho fechado, o dedo que aponta, a mão que bate na coxa em frustração.
A respiração não atua sobre as mãos. Atua sobre a caixa torácica. E enquanto o teu peito se dilata com calma, as tuas mãos continuam apertadas, prontas para falar — e são elas que ficam com a última palavra.
O que as mãos sabem
Há uma razão muito simples para certas práticas ancestrais — amassar, dobrar, alisar, escovar, descascar — terem sobrevivido a todas as épocas. Não são só gestos úteis. São reguladores nervosos que as nossas avós conheciam sem lhes dar nome.
Quando as tuas mãos fazem algo repetitivo, sensorial e produtivo, enviam ao sistema nervoso uma mensagem que a respiração não consegue enviar: o perigo passou, o corpo está ocupado a construir, não a defender-se.
É essa mensagem que acalma. Não o oxigénio a mais.
E essa mensagem, as tuas mãos sabem enviá-la. Não precisas de a aprender — precisas de te lembrar dela.
Quando um filho chora nos teus braços, as tuas mãos acariciam-lhe as costas antes de a tua cabeça pensar nisso. Quando cozinhas para alguém que amas, as tuas mãos dobram, cortam, mexem num ritmo que não pede nada à tua cabeça. Estes gestos, o teu corpo conhece-os desde sempre. A modernidade só os pôs na cozinha — antes, era a vida inteira que os continha.
O gesto que ocupa os 90 segundos
Há um gesto preciso que ocupa exatamente esses 90 segundos críticos, que fala diretamente ao sistema nervoso através das mãos, e que não pede nada ao teu córtex pré-frontal fora de serviço.
Descrevo-o em O Recurso, o texto gratuito que envio às mães e aos pais que me seguem. É o segundo dos sete gestos, e chama-se Pousar. Uma fábula curta. Poucas páginas para ler uma noite. Um gesto para experimentar no dia seguinte — à porta do quarto às 20h47, por exemplo.
E para além do Recurso, este gesto é um dos pilares de um livro que estou a escrever — Amassar o pão, dar forma à raiva. O livro vai à profundidade daquilo que as mãos sabem: como certos gestos antigos, feitos todos os dias na cozinha, não acalmam a raiva, mas transformam-na — de maneira duradoura, sem a suprimir.
Para começar esta noite
Ser avisada do lançamento de *Amassar o pão, dar forma à raiva*
Esta noite, à porta do quarto, não precisas de respirar melhor. Precisas de que alguém finalmente te diga que isto não é um problema de respiração. É um problema de morada. Falamos para o andar de cima enquanto a raiva se fabrica lá em baixo.
As tuas mãos, entretanto, só esperam por um gesto que fazer.
E o que és, ali, no corredor às 20h47, de pé à porta, com uma respiração calma e uma mão ainda assim fechada, é simplesmente a parte de ti que diz: Chega.
Com ternura,
— Sèna
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