FamillePhilosophie

Os doze sinais do burnout parental que ninguém nomeia

As listas oficiais descrevem quatro sinais. Existem outros doze, minúsculos e quotidianos, de que ninguém fala. Talvez se reconheça neles.

11 min de leituraSèna Gay-Vigan

Já leu as listas.

O esgotamento que não cede ao descanso. A distância com os filhos. O desfasamento com o pai ou a mãe que se era. A saturação.

Quatro sinais. Sérios, documentados, exatos.

E leu-os a pensar: sim, provavelmente, um pouco.

Não foi isso que a fez procurar à meia-noite. O que a fez procurar foi mais pequeno. Um pormenor tolo que não se atreveria a contar a ninguém porque parece ridículo dito em voz alta.

Esses pormenores não constam em nenhuma lista.

São, no entanto, o que o esgotamento faz de si, dia após dia, nos cantos que ninguém olha.

Aqui estão doze.

Porque é que não estão em nenhuma lista

Os quatro sinais clínicos descrevem um estado. Foram feitos para ser assinalados por um profissional, num consultório, em dez minutos.

São exatos. Mas são vistos de fora.

Vista de dentro, a fadiga não se parece com uma casinha assinalada. Parece-se com uma mulher de pé numa cozinha, às 21h, a comer restos frios diretamente da panela porque sentar-se significaria ter de se levantar de novo.

São estes os sinais que vai reconhecer. E agrada-me pensar que nos sentimos menos sozinhas quando alguém põe palavras naquilo que julgávamos ser uma excentricidade pessoal.

Os sinais do corpo

O corpo fala antes de todos. Diz as coisas primeiro, e ninguém o escuta.

1. O barulho magoa

Não incomoda. Magoa.

A cadeira a arrastar, o desenho animado, dois filhos a falar ao mesmo tempo — algo aperta-se no maxilar, fisicamente. Sobe o som do exaustor para abafar o resto.

Um sistema nervoso sem margem trata o barulho como uma agressão. Não é intolerância. É um alarme saturado.

2. Come de pé

Nunca sentada. Da panela, ou sobre o lava-loiça, ou a andar.

Diz para si que é mais prático. Na verdade, sentar-se significaria ter de se levantar de novo, e levantar-se tornou-se a parte cara.

3. Já não suporta que lhe toquem

À noite, quando todos dormem, a mão do companheiro no ombro faz-lhe enrijecer o corpo. E arrepende-se de imediato.

Não é indiferença. Depois de um dia inteiro a ser trepada, puxada, agarrada, a sua pele chegou ao limite. Já não há espaço.

4. Fica no carro

Chegou. O motor está desligado. E fica ali, dois minutos, cinco minutos, sem fazer nada.

Esse carro é o único lugar do mundo onde ninguém lhe pede nada.

Os sinais da retirada

São mais silenciosos. São os que mais doem ao reler.

5. Já não tira fotografias

O seu álbum para no ano passado. Antes, fotografava tudo — o primeiro dente, o bolo mal cozido, a sesta no cesto da roupa.

Fotografar é encontrar um momento digno de ser guardado. Quando se aguenta com o mínimo, já não se olha. Atravessa-se.

6. Deixou de contar o seu dia

Ao companheiro, à irmã, à amiga. Responde «está tudo bem» e passa a outra coisa.

Não por pudor. Porque contar exigiria organizar o que aconteceu, e organizar exige uma energia que não tem. O silêncio custa menos.

7. Responde «sim» sem ter ouvido

O seu filho fala consigo. Diz que sim. E três segundos depois não faz ideia do que acabou de consentir.

É o que a distância afetiva faz, concretamente, numa cozinha. Não um grande afastamento dramático. Um «sim» automático, cinquenta vezes por dia.

8. Esconde-se na casa de banho

O telemóvel na mão, sem ler nada a sério. Quatro minutos.

É a única porta da casa que pode fechar sem que lhe perguntem porquê.

Os sinais da fuga

Esses envergonham. Não deviam.

9. Inveja quem está doente

Uma colega apanha uma gripe e fica na cama três dias. E, algures, bem no fundo, há uma ponta de inveja.

Não é maldade. É que procura uma razão aceitável para parar — porque «já não aguento mais» não lhe parece razão suficiente.

É.

10. O domingo à noite aperta-lhe a garganta

Por volta das 18h, algo fecha-se. A semana que recomeça surge de bloco: os despertares, as mochilas, as refeições, os trabalhos de casa, as deitas. Cinco dias, vistos todos ao mesmo tempo.

11. Sonha com tarefas domésticas

Passar a ferro sozinha. Arrumar um armário. Limpar os vidros.

Parece absurdo sonhar com tarefas. Mas não são tarefas que procura — são gestos simples, feitos com as mãos, dos quais ninguém espera nada de si. O único descanso que ainda consegue imaginar.

12. Conta as horas até deitá-los — desde de manhã

Sete horas da manhã. E uma voz interior já calcula: treze horas até adormecerem.

Viver um dia a contá-lo ao contrário é não o viver. É aguentá-lo.

O que se faz com esta lista

Nada.

Não é um teste para pontuar. Não há um limiar a partir do qual seria preciso preocupar-se, nem um plano de ação em doze pontos para começar amanhã de manhã.

Uma lista como esta só tem uma utilidade: pôr palavras.

Porque o que mais desgasta, nestes doze sinais, não são os sinais em si. É vivê-los a acreditar que lhe pertencem só a si. Pensar que ficar no carro é uma excentricidade sua. Que comer de pé é negligência. Que contar as horas é não gostar o suficiente dos filhos.

Não é nada disso.

É um sistema no limite a fazer o que pode com o que lhe resta.

E o simples facto de o nomear retira um pouco de peso — não porque mude fosse o que fosse no seu dia de amanhã, mas porque a vergonha se atenua quando se descobre que não se está sozinha nisto.

Se estes doze sinais lhe falaram, o artigo que explica porque o descanso não os repara está aqui. É aí que está o mecanismo.

Vale eternamente, incondicionalmente. É a senhora o extraordinário.

Para ir mais longe

Escrevi O Recurso, um livreto gratuito de 66 páginas, para as noites em que já não resta nada. Sem método. Com gestos.

Receber *O Recurso* (gratuito)

Com carinho,

— Sèna

À lire dans le prolongement de cet article.

Explorer la rubrique : Famille

Cet article dans d'autres langues

Questions fréquentes

Quais são os doze sinais do burnout parental que ninguém nomeia?

Doze sinais minúsculos e quotidianos: o barulho que magoa fisicamente, comer de pé, já não suportar que lhe toquem, ficar no carro, deixar de tirar fotografias, deixar de contar o dia, responder «sim» sem ter ouvido, esconder-se na casa de banho, invejar quem está doente, o domingo à noite que aperta a garganta, sonhar com tarefas domésticas, contar as horas até deitá-los desde de manhã.

Porque é que estes sinais não constam de nenhuma lista oficial?

Porque as listas clínicas descrevem um estado visto de fora, em dez minutos, num consultório. Estes doze sinais são vistos de dentro: são as formas como o esgotamento se manifesta numa vida comum, em cantos que ninguém olha.

O barulho pode magoar quando se está exausta?

Sim. Quando o sistema nervoso já não tem margem, trata o barulho como uma agressão. A cadeira a arrastar, o desenho animado, dois filhos a falar ao mesmo tempo podem provocar uma tensão física real no maxilar ou nos ombros. Não é intolerância: é um alarme saturado.

Reconhecer-se nestes sinais quer dizer que se está em burnout?

Não. Não são critérios clínicos. Reconhecer-se em vários destes sinais quer dizer que o esgotamento a habita de forma visível no dia a dia. Se muitos deles duram há várias semanas e o descanso não muda nada, vale a pena falar com um médico ou um psicólogo.

Quando ligar para a Linha SNS 24 ou para a Linha SOS Criança?

Quando o esgotamento vem acompanhado de pensamentos negros, de medo das suas próprias reações para com os filhos, ou simplesmente quando precisa de falar com alguém sem julgamento. A Linha SNS 24 está disponível no 808 24 24 24, todos os dias; a Linha SOS Criança e Jovem, gratuita e confidencial, está no 116 111.

Partager cet article

Aller plus loin

Découvrez la collection d'ebooks

Six ebooks pour cuisiner avec amour, transmettre, et retrouver le plaisir de la table.