Já ouviu isto, com aquela condescendência na voz dos outros adultos.
É demasiado sensível. Exagera. Faz uma tempestade num copo de água. Tudo para lhe dizer educadamente que um adulto não devia ser tão sensível. Que devia ultrapassar a infância e tornar-se um adulto a sério — daqueles que gerem as suas emoções.
Já ouviu isto: é permissiva com os filhos. Consigo, eles soltam-se, são verdadeiros, sentem-se em segurança. Mas para os outros são apenas mal-educados, e devia apertar as rédeas.
Já ouviu a família próxima a deixar escapar: connosco, ficam sossegados. Dormem que nem uma pedra. Ou seja, o problema é a senhora. Às vezes levam o argumento mais longe: tem de retomar as rédeas. Vão acabar por a comer viva. Estão a ficar mimados.
E se aquilo a que o mundo chama a sua fraqueza fosse, na verdade, o seu recurso?
Não deixou cair aquilo que a maioria dos adultos acabou por trancar à chave: a empatia. Essa capacidade de sentir a dor do outro sem, ainda assim, tomar o seu lugar.
Todas as crianças do mundo a têm. Querem ajudar, apanhar a caneta caída, aproximar-se de outra criança que chora. Depois muitas de nós foram magoadas, e fecharam a porta ao que sentiam a mais.
Restam então aqueles que escolhem profissões de ajuda. E vós, os pais ultraenvolvidos.
Sente-o, não é verdade? Quando o filho sofre e chora. Sente-o, não é verdade? Quando resiste, quando quer ser ouvido. Baniu as palavras birra e manipulação do seu vocabulário assim que se trata de uma criança.
Assume as palavras fraca e facilitismo que lhe atiram à cara. Porque castigar uma criança que pede para ser ouvida — mesmo através de comportamentos desajeitados — seria trair a sua alma.
Isto não é, ainda assim, condescendência. Não fecha os olhos a comportamentos desviantes. Não faz de avestruz dizendo é só uma criança, é fofa, tem o direito de pisar os pés dos outros. Compreendeu isto: todo o ser humano tem direito ao respeito, seja qual for a sua idade, seja qual for a sua origem.
Não está sozinha.
Fizeram-na acreditar que era o QI que fazia o sucesso. O Dr. Marc Brackett lembra que é o QE — o quociente emocional — que é o recurso raro das pessoas realizadas.
As emoções são, para nós, o que os sinais de trânsito são para a estrada. Quando se compreendem os sinais e se conduz bem, dá-se uma carta. No mundo dos adultos, continua-se, no entanto, a conduzir ignorando os sinais, os apelos e as mensagens que o corpo envia para navegar na vida.
A senhora não os ignora. Nem em si, nem nos filhos.
É um dom. É também um peso. Ninguém lhe ensinou a carregar os dois juntos — e quando o peso se torna demasiado pesado, tem um nome: o burnout parental.
Os gestos existem — não estão aqui.
Este artigo apresenta o porquê. O porquê da fadiga que não passa com uma noite de sono. O porquê do «demasiado» de que a acusam. Não dá os gestos.
Os gestos que aliviam — os que permitem aguentar sem se perder — estão n'O Recurso, o livreto que a casa oferece em troca de um simples email.
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